Quando o corpo volta a ser casa
- 17 de fev.
- 3 min de leitura
Reaprender a linguagem do sentir como caminho de autoconhecimento e regulação

Há momentos em que algo em nós pede atenção. Deixamos de estar confortáveis no nosso próprio corpo. Pode começar de maneira subtil, quase a pedir-nos licença para entrar. De forma inconsciente, deixámos.
E a permanência pode ser difusa; ela não grita. É impermanente. Não dramatiza, apenas pulsa. Até que um dia, a visita torna-se permanente; Uma tensão no maxilar. Um peso no peito. Um vazio no abdómen.
Durante muito tempo, aprendi a ultrapassar estas sensações. A racionalizar. A manter o controle. A funcionar. E o corpo, fiel à sua missão de me proteger, foi adaptando-se. O que muitas vezes esquecia é que o corpo não está contra mim. Ele está sempre a favor da minha sobrevivência.
Como escreve Bessel van der Kolk, em The Body Keeps the Score,
“O corpo mantém a marca do que a mente tenta esquecer.”
O corpo não guarda para nos punir. Guarda porque a memória fisiológica é uma forma de proteção. O sistema nervoso aprende com a experiência. E, quando algo foi vivido como ameaça, o corpo passa a antecipar. Mas antecipar não é viver. E proteger não é o mesmo que estar seguro. Reaprender a escutar o corpo começa com um movimento simples: curiosidade.
E vencendo o medo de sentir, passei a permitir-me sentir. Com curiosidade. E em segurança.
Peter Levine, criador da Somatic Experiencing® , recorda que
“O trauma não está no evento, mas no sistema nervoso.”
Isso significou que o que precisava de reorganização não era a minha história em si, mas a resposta fisiológica que me foi ativada no passado Quando, com suavidade, comecei a ter coragem de me fazer a seguinte pergunta:
“O que estou a sentir agora?”
E depois, comecei a ter curiosidade de saber mais sobre mim e fui além : “Onde sinto isto no corpo?”
Então, algo começou a mudar.
Dar nome à sensação — aperto, calor, formigueiro, contração — e localizar onde ela se manifesta ativa áreas do cérebro associadas à integração emocional, como o córtex pré-frontal medial.
Daniel Siegel descreve este processo como “name it to tame it” — nomear para regular.
Quando comecei a identificar claramente o que sentia e onde sentia, passei a sentir alguns movimentos reguladores:
1. Reduzir a ativação difusa — a sensação deixou de ser um estado global de ameaça e passei a apercebê-la como uma experiência localizada.
2. Passei a focar-me na orientação no presente — observar o local onde estou, os detalhes, para distinguir entre memória e realidade atual.
Com estes simples movimentos, passamos a ativar a função integradora do cérebro — o sistema nervoso passa de reatividade para organização.
Não é magia. É neurobiologia. É a curiosidade segura como gesto regulador. Quando sabemos o que sentimos, o corpo organiza-se.
A indefinição gera ansiedade, sabias?
Pois, se tu assumires de vez o que sentes (não o que é “aceitável” ou “bonito” de se sentir), transformas o que sentes em clareza que rapidamente gera a estabilidade.
Quando dizes “estou mal”, o sistema nervoso permanece em alerta. Experimenta dizeres: “sinto um aperto no peito e uma pressão nos ombros”, e provavelmente o teu estado interno torna-se mais
concreto, mais delimitado. Mais fácil de digerir porque nele tem a definição de um local(isso não define todo o meu sentir, todo o meu território corporal) e
nome.
Eu sei o que sinto e como sinto. Se consigo nomear, é porque isto existe. Existir trarar-te-á segurança.
Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, explica que a segurança não é apenas uma ideia — é uma experiência fisiológica.
Pode ser que este pequeno exercício abra espaço dentro de ti para conheceres mais como te sentes e como colocas significado naquilo que sentes.
Localizar sensações cria previsibilidade interna.O sistema nervoso compreende que há consciência. E consciência é um marcador de segurança. Tu começas a saber com quem estás a lidar. Ora essa(!), contigo mesma.
E não é que, afinal, sentir pode ser seguro? Pode haver dor, mas pode haver sensações agradáveis, aprendizados. Linguagem de um alfabeto que seria bom treinares todos os dias para poderes falar com fluência.
Sentir com consciência não aumenta a dor. Organiza-a.
Quando olhamos para dentro de nós com mais curiosidade e, com segurança do que nos é possível até aquele momento, passamos a chamar por tu o nosso próprio sentir; o continente que habitamos e que chamamos de corpo.
Há caminhos que nos ajudam a cultivar esta escuta de forma acompanhada, estruturada e segura. Caminhos onde o corpo deixa de ser um território desconhecido e se torna um aliado. Porque talvez o verdadeiro autoconhecimento não seja descobrir algo novo, mas recordar aquilo que o corpo sempre soube.
E quando isso acontece, o sentir deixa de ser ameaça.
Passa a ser casa. Como é para ti habitar o teu corpo?




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