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Depois da água, o corpo: como as cheias ficam gravadas em nós.

  • 4 de fev.
  • 3 min de leitura


Um olhar somático sobre o trauma coletivo nas cheias em Portugal e uma prática simples de primeiros socorros internos para voltar a sentir algum chão.


Nestes dias de chuvas avassaladoras em Portugal, não é só o que vemos nas notícias que fica marcado: ruas destruídas, casas alagadas, bens perdidos. Também por dentro algo se abala — o nosso senso de segurança, de pertença, de “casa”. Perder o teto, a comida no frigorífico, a luz que aquece ou a água que limpa não são apenas “coisas materiais”; são referências de estabilidade, dignidade e identidade. Quando isso se desintegra, o corpo sente, o sistema nervoso reage e, de repente, tudo pode parecer demais.


Quando vivemos, em conjunto com outras pessoas, acontecimentos que excedem a nossa capacidade interna de resposta, falamos de trauma coletivo. Guerras, desastres naturais, pandemias e perdas em grande escala podem ativar este tipo de impacto: o sistema nervoso autónomo entra em modo de sobrevivência — luta, fuga, congelamento ou colapso — mesmo quando estamos “apenas” a tentar lidar com o básico do dia a dia. 

Peter Levine, criador da Somatic Experiencing, lembra que o trauma não está apenas no acontecimento em si, mas na forma como o corpo o experiencia; quando não há espaço, tempo ou apoio para processar, a resposta ao stress tende a ficar presa em nós.


Se estás a sentir medo, raiva, tristeza, confusão ou até um estranho entorpecimento, isso faz sentido. Não importa o tamanho da tua perda, nem se foste afetada diretamente ou “apenas” através de imagens e relatos: o teu corpo está a tentar proteger-te, e a tua dor merece espaço. A dor não se mede, sente-se — e o sistema nervoso precisa de pequenos sinais de segurança para começar a sair do modo de emergência.


Por isso, hoje deixo-te um fio de chão: uma prática simples de “primeiros socorros” internos, que podes levar contigo, no corpo, mesmo que tudo à tua volta pareça instável. O SCOPE, desenvolvido pela Somatic Experiencing International no contexto da Crizis Stabilization and Safety, é uma sequência breve que ajuda a estabilizar fisiológica e emocionalmente, convidando o sistema nervoso a encontrar um pouco mais de regulação.


S – Slow motion  

Abranda. Se for possível, dá cerca de 10 passos muito devagar. Repara na sensação da planta do pé a tocar o chão, no peso do corpo a ser sustentado, no ritmo mais lento do movimento.


C – Conecte-se ao seu centro  

Cruza braços e tornozelos. Coloca as mãos debaixo das axilas e baixa ligeiramente a cabeça. Nota o contacto das mãos com o tronco, a sensação de contenção, e deixa a respiração acompanhar este gesto de “abraço” em ti.


O – Oriente-se  

Olha à tua volta lentamente. Nomeia cores, formas ou objetos que consegues ver. Permite que o olhar repouse em algo que te traga algum conforto ou neutralidade — uma pequena pausa visual para o sistema nervoso reconhecer que, neste momento, estás aqui.


P – Pendule (Pêndulo)  

Traz atenção a uma parte do corpo que esteja relativamente confortável ou neutra. Depois, leva a atenção a uma parte mais tensa ou desconfortável. Alterna devagar entre as duas, como se estivesses a balançar a atenção de um lado para o outro, sem forçar nada a mudar, apenas notando diferenças.


E – Envolva-se  

Contacta alguém. Pode ser um telefonema, uma mensagem, um olhar trocado com uma pessoa de confiança. O apoio social é um dos reguladores mais potentes do sistema nervoso e lembra-nos que não precisamos atravessar isto sozinhas.


Mesmo que o mundo pareça ruir, tu continuas a merecer momentos de pausa, de respiração e de cuidado. Volta ao corpo sempre que puderes, com gentileza, usando o SCOPE como um pequeno “kit de emergência” interno para estes tempos de cheia — externa e interna. Estás a fazer o melhor que consegues, com o que tens disponível agora, e isso é o bastante para este momento.



Porque transformar começa no corpo.

Se sentiste este texto contigo, talvez queiras alguém para te escutar. Se estás em situação de trauma com perda nos eventos das cheias em Portugal ou estar a socorrer e atender pessoas em estados de traumatização, acede aqui que estarei a disposição para te ouvir, sem custo. Em ação de voluntariado.


Em presença,

Camila Leite | Integração Corpo e Mente





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